Interessante matéria sobre o futuro da atividade portuária em Rio Grande

    Em 1997, Rio Grande mostrava um cenário bem diferente do atual. O mercado imobiliário estava estagnado e, aliado a isso, em agosto do ano seguinte um navio de bandeira maltesa “Bahamas” derramava ácido sulfúrico na Lagoa dos Patos e no mar. O caso Bahamas foi um dos maiores responsáveis por danos ambientais na região e afetou consideravelmente a vida da comunidade local em diversos aspectos como econômicos e sociais.
    As condições e perspectivas para um possível crescimento na cidade eram mínimas, até que Marcelo Domingues, geógrafo e doutor em organização e gestão de território pela UFRJ, escreveu uma série de seis artigos a pedido da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Rio Grande (Searg), onde dizia que Rio Grande deveria pensar na capacidade de comportar navios de maior porte no porto da cidade.
    De acordo com os estudos feitos pelo geógrafo, a ideia central dos artigos era a de alertar a comunidade rio-grandina de que o porto local e a própria cidade em algum momento seriam utilizados por grandes projetos portuários industriais. “Quem trabalha com planejamento e ordenamento territorial, trabalha permanentemente na incerteza e na construção de cenários de tendências. Ou seja, trabalha com perspectiva territorial; os cenários são sempre de médio ou longo prazo. Todos esses grandes empreendimentos têm uma temporalidade de cinco a dez anos entre a concepção da ideia e a concretização do projeto”, afirma ele.
    Na época, os artigos foram publicados pela Searg, o que gerou uma grande polêmica na comunidade, em sua maioria, leiga no assunto. Se de um lado os artigos de Marcelo Domingues geraram dúvidas nos rio-grandinos, de outro, seu autor tinha a confiança da Secretaria de Assuntos Estratégicos da República, o que lhe dava acesso à muita informação.
    A relação do geógrafo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da República se deu por conta da tese de mestrado de Marcelo, a qual foi enviada uma cópia para a secretaria. Interessados pelo trabalho, os membros da Secretaria colocaram à disposição de Marcelo as informações necessárias para a elaboração da tese de doutorado, denominada “Impacto da logística de transporte marítimo no sistema portuário brasileiro”.
    Além da troca de informações, Marcelo Domingues também teve contato com pessoas influentes no assunto, como o responsável por causar uma verdadeira “revolução” no sistema de transporte marítimo-ferroviário de granéis sólidos e líquidos mundial, o engenheiro Eliezer Batista.
    Hoje, as afirmações de Marcelo dizendo que o Porto do Rio Grande futuramente seria um dos portos concentradores de cargas se concretizaram, e a cidade se mostra em constante crescimento. 
    Seguindo sua linha de trabalho e pesquisas, o geógrafo fala um pouco sobre possíveis construções portuárias que terão influência direta no Porto do Rio Grande. Marcelo contou que existem dois fatos que terão impacto direto nas atividades portuárias do Rio Grande. Um deles é o projeto do superporto do Açu, localizado no município de São João da Barra, norte do Estado do Rio de Janeiro. O projeto criado pelo empresário Eike Batista, filho do engenheiro Eliezer Batista, é o maior investimento em infraestrutura portuária das Américas, e foi concebido com o objetivo de funcionar como centro logístico de importação e exportação para as regiões centro-oeste e sudeste do Brasil, tendo a possibilidade de escoar produtos pela costa do país através de serviços de cabotagem – navegação entre portos marítimos de um mesmo país, sem perder a costa de vista. Outro fato, que se concretizado, influenciará no porto rio-grandino, é a possível construção de um porto em águas profundas no Uruguai. A potencial construção seria toda financiada por chineses e estruturaria um corredor de exportação que ficaria entre Uruguai e Bolívia.
    Sabendo-se da fama dos chineses na construção de seus portos, acredita-se que o porto construído por eles no Uruguai terá o mesmo nível dos portos da China, como por exemplo, o porto de Xangai, um dos portos mais importantes do mundo.
    O trabalho de Marcelo é pegar as macrotendências do presente, como logística, tipo e tamanho do navio, mais planejamento setorial do país e a partir daí mexer com essas variáveis a fim de visualizar qual o tipo de impacto – positivo e negativo – a evolução das mesmas terá no intervalo de uma década. Depois disso é possível que ele veja a evolução do sistema como um todo e, portanto, qual o tipo de cenário tente a se cristalizar. Pela criação dos dois portos citados anteriormente pelas pesquisas feitas, Marcelo acredita que os rio-grandinos não devem se acomodar na atual situação do porto, pois podem acabar perdendo espaço para novas construções.
    “É necessário que não se deite em berço esplêndido com ufanismos em relação ao potencial do porto e do Pólo Naval do Rio Grande, uma vez que outras cidades estão se mobilizando permanentemente em busca de melhorar a sua competitividade e performance socioeconômica, já que é possível construir, do nada, um grande complexo portuário industrial. A exemplo do superporto de Açu, que de uma praia, futuramente será um porto com capacidade para operar 350 milhões de toneladas por ano, quinze vezes o que opera hoje”, afirma ele.
    O geógrafo Marcelo Domingues acredita que um dos maiores desafios da comunidade rio-grandina é dar condições à cidade para que haja um crescimento de qualidade. “Nós temos um enorme desafio, que é o de dar condições de sustentabilidade social, econômica e ambiental para esse acelerado processo de crescimento econômico, que esperamos a partir de 2020 se traduza em desenvolvimento de fato”, concluiu.
    Fonte: Suziane Sá – Jornal Agora



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