Brasil Econômico: Setor de petróleo e gás desconhece a palavra crise

    Um setor em crescimento, para o qual não falta demanda e, importante, crédito acessível. Este foi o recado dado pelos participantes do seminário “Brasil em Perspectiva— Qualificar e Competir Petróleo & Gás”, promovido pelo grupo Ejesa, por meio do BRASIL ECONÔMICO e do jornal O Dia, que ocorreu na manhã de ontem em Porto Alegre, na sede Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). Além de discutir os rumos do novo momento da indústria naval brasileira, a Petrobras ressaltou as vantagens do programa Progredir, que fomenta o surgimento de novos fornecedores para a execução das encomendas da companhia.

    Publisher do BRASIL ECONÔMICO e mediador dos debates, Ricardo Galuppo resumiu o momento positivo que vive o setor. “É bom discutir óleo e gás no Brasil por que não se fala em crise.” Opinião compartilhada por quem vive as entranhas do negócio e é o agente motivador do crescimento: a Petrobras, cujas encomendas de navios e plataformas já provocaram um investimento de cerca de R$ 14 bilhões somente no polo naval de Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul.

    O gerente geral de Gestão Financeira de Projetos Especiais da Petrobras, Roberto Alfradique, apresentou o programa Progredir, que facilita o acesso ao crédito aos fornecedores ligados à estatal. Segundo as regras do programa, fornecedores de até quarto grau podem habilitar-se para obter crédito lastreado nos equipamentos ou serviços a serem prestados à companhia. “Temos necessidades contratuais de atingir as metas de conteúdo local em todos os projetos de exploração de petróleo e gás e a maior dificuldade para isso é a cadeia de fornecedores, que não tem acesso a um capital de giro competitivo. Para agir nesse problema, a área financeira da Petrobras criou o Progredir”, explica Alfradique.

    Para os fornecedores que precisam adiantar parcelas de recebíveis da companhia, uma novidade. Era costume da Petrobras antecipar parcelas contratuais — pagas normalmente 30 dias após a entrega do bem ou serviço. Para isso, a estatal cobrava uma taxa de juros definida. “Achamos, no entanto, que este dinheiro deveria ser utilizado para furar poços e não para fazer operações financeiras. Não somos um banco para emprestar dinheiro a juros. Por isso criamos o Fundo de Investimento em Direitos Crediários do Progredir”, revela Alfradique. O piloto está em funcionamento desde setembro e, segundo as últimas contas, já liberou cerca de R$ 6 milhões em faturas antecipadas. Agora, ao invés de tomar antecipações com a Petrobras, os fornecedores diretos podem antecipar os recebíveis por meio de uma operação bancária, em condições mais competitivas.

    Nas demais falas do seminário, o otimismo continuou sendo a tônica. Marcus Coester, presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI), destacou o novo momento da indústria offshore gaúcha e revelou o planejamento para os próximos anos. Segundo ele, os principais objetivos a serem atingidos até 2014 são a conclusão dos estudos de viabilidade técnica no entorno da Lagoa dos Patos, para viabilizar mais empreendimentos, e a organização do arranjo produtivo local da indústria de petróleo, gás, naval e offshore. “Também pretendemos fazer uma divulgação mais eficiente do que estamos conquistando aqui no Sul, para compartilhar essas experiências com todo o setor”, afirma.

    Já o coordenador do Comitê de Competitividade em Petróleo, Gás, Naval e Offshore da Fiergs, Oscar de Azevedo, demonstrou os caminhos para o crescimento da indústria gaúcha com o advento dos polos navais instalados no RS. E, para marcar a abundância revelada no evento, o Superintendente de Operações do Setor da Nova Economia do Badesul, Marcelo Perez, apresentou as possibilidades de obtenção de crédito na instituição. Atuando como operador dos recursos do BNDES, o Badesul tem opções para todos os tamanhos de empresas. “Não visamos lucro, pois somos uma agência de fomento. Por isso, temos dinheiro muito competitivo para financiar todos os elos da indústria oceânica”.

    Sem disfarçar a empolgação, o presidente da AGDI fala nesta entrevista sobre a atração de novos investimentos da indústria naval no Rio Grande do Sul e seus desafios decorrentes.

    Qual é a situação atual da indústria naval e offshore no Rio Grande do Sul?
    Passado o primeiro momento, depois dos investimentos iniciais e da instalação dos primeiros estaleiros na cidade de Rio Grande, enfrentamos a limitação territorial. Em Rio Grande, toda a área estava ocupada com os estaleiros existentes e com os terminais portuários. A solução foi aproveitar um outro recurso natural que temos: a Lagoa dos Patos e a hidrovia que existe nela. Com isso, pudemos fomentar polos navais ao longo de cidades muito distantes de Rio Grande, como Charqueadas, Triunfo e São Jerônimo. Aproveitamos a Lagoa e sua ligação com os rios Jacuí e Taquari para instalar unidades fabris, que produzem grandes peças e equipamentos usados nos estaleiros. O calado na área da hidrovia, no entanto, varia entre quatro e cinco metros, o que impossibilita a instalação de estaleiros. Para solucionar esse problema, utilizamos uma grande área ainda disponível no município de São José do Norte, que é separado de Rio Grande por um canal. Posso dizer, então, que o atual momento da indústria oceânica gaúcha ainda é de crescimento, de expansão.

    A chegada de grandes investimentos do setor naval causou problemas sociais em algumas cidades brasileiras, como Macaé. Como o o estado pretende lidar com a questão?
    Temos uma grande preocupação com isso. São José do Norte, por exemplo, é uma cidade de 25 mil habitantes que, há menos de 10 anos, não tinha acesso por asfalto. Sua economia ainda é primária, com agricultura, pesca e um pouco de silvicultura. Somente um dos estaleiros que está em vias de se instalar na cidade, o EBR, contratará cinco mil operários. É um crescimento muito vertiginoso e precisamos cuidar para que ele não seja caótico. Essa equação é complicada, mas sabemos que a resposta passa pela qualificação da mão de obra local. O Senai atua, em parceria com empresas e o governo, para qualificar a população. O próximo passo será o uso da área da antiga Zona de Processamento e Exportação, de Rio Grande, para montar um centro de profissionalização offshore, que entra em operação no ano que vem.

    E nos demais polos? Como solucionar a questão?
    A localização do polo naval do Jacuí favorece a contratação de mão de obra especializada, pois fica próxima à região metropolitana de Porto Alegre. Também fica mais próxima dos centros que já investiam, há muito, na qualificação de trabalhadores para indústrias metal-mecânicas, como a Serra Gaúcha. Mas isso não é suficiente, pois ainda estamos em fase de expansão. Por isso é tão importante a atuação, em parceria, das entidades como a Fiergs, junto com Senai e governos, para que as oportunidades geradas com nessa nova economia encontrem trabalhadores preparados.

    Manteremos competitividade brasileira para enfrentar a indústria naval global no longo prazo?
    Para ter um futuro competitivo, precisamos de uma boa estratégia, que preveja os movimentos do mercado e garanta a eficiência da nossa indústria. Já existem prospecções, como novos campos de exploração na costa da África do Sul, cuja formação geológica é muito semelhante à nossa área do pré-sal. O país também está promovendo a desoneração do setor, incentivos às indústrias e desenvolvimento de tecnologia. Também estamos nos preparando com novas regulamentações. Mas o certo é que se tivermos uma estratégia eficiente, nossa indústria naval poderá enfrentar a concorrência mundial no longo prazo.

    E no curto prazo? Quais são os próximos passos?
    Ainda há muito o que crescer. Já falamos da expansão em São José do Norte, onde serão edificados mais um ou dois estaleiros. No Polo do Jacuí, há muita área para o crescimento. E tem o desenvolvimento de setores que a gente nem imagina. Por exemplo: em Rio Grande ainda não existe uma lavanderia especializada para lavar os uniformes dos operários dos estaleiros, pois nunca havia sido necessário um serviço como este. Mas logo, logo, algum empresário vai se beneficiar dessa oportunidade.

    Parcerias para estimular a economia
    Aproveitar o momento positivo para qualificar a indústria local, tornando-a habilitada para suprir as demandas geradas pelos grandes empreendimentos já instalados em solo gaúcho. Essa é a preocupação da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), que trabalha para identificar as potencialidades dos polos industriais. Com uma atividade industrial tradicional consolidada, chegou a hora do estado reinventar sua capacidade produtiva para atender às novas demandas.

    “Temos uma indústria tradicional, com destaque para setores como o moveleiro e o metal-mecânico. Nosso maior desafio é incentivar formas de integrar esse sistema produtivo às necessidades do setor offshore”, afirma Oscar de Azevedo, coordenador do Comitê de Competitividade em Petróleo, Gás, Naval e Offshore da Fiergs.

    Os esforços das lideranças já surtiram efeitos. Depois que o polo naval de Rio Grande tornou-se uma realidade concreta, com a construção dos estaleiros e a entrega das primeiras plataformas petrolíferas, o interesse da indústria tradicional pela nova atividade cresceu.

    Tanto que já há fornecimento para a cadeia de Petróleo e Gás por parte de indústrias gaúchas de automação, compressores, engenharia, equipamentos termomecânicos, módulos, entre outros. No entanto, ainda é preciso avançar.

    Conteúdo regional
     
    Ampliar o conteúdo regional, com o fortalecimento do arranjo produtivo local no Rio Grande do Sul, é o grande desafio da Fiergs, segundo Azevedo. Para isso, será necessário retomar a engenharia nacional, engajar as empresas em atividades de inovação e ampliar a base de empresas credenciadas para fornecimento ao Sistema Petrobras.

    Para se ter uma ideia, em 2010 eram 50 empresas com o Certificado de Registro e Classificação Cadastral (CRCC). Em 2012, esse número saltou para 136.

    Um dos caminhos encontrados pela Fiergs para qualificar e aumentar esse conteúdo regional passa pela educação. “Precisamos dar condições de expansão para os grandes empreendimentos como a Quip ou o futuro estaleiro EBR. Para isso, a capacitação profissional é indispensável”, ressalta Azevedo. O polo naval de Rio Grande, de acordo com a Fiergs, tem empregabilidade de 100% dos trabalhadores qualificados nos programas de capacitação.

    No entanto, com a chegada de mais estaleiros e com o crescimento do restante da indústria, serão necessários mais trabalhadores qualificados.

    Duas boas notícias foram destacadas por Azevedo. Uma delas é a implantação, na extinta Zona de Processamento e Exportação (ZPE) de Rio Grande, de um centro de profissionalização.

    Outra é a intenção da Fiergs, por meio do Senai, de criar um instituto especializado na área de Petróleo e Gás na cidade de Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre. “Temos que utilizar a transversalidade e a inteligência dos Senais das regiões envolvidas para atender a esta demanda”, alerta.

    Cultura do financiamento
    Outro desafio identificado por Oscar de Azevedo é a cultura de muitas empresas gaúchas, que optam por não tomar financiamento e assumir o risco de investimentos com recursos próprios. Talvez seja essa a explicação para que a Região Sul tenha somente 7,4% do volume de recursos liberados pelo Programa Progredir em 2012. Considerando somente o Rio Grande do Sul, esse percentual cai para 4,4%.

    Aumentar a competitividade das indústrias locais e credenciá-las como fornecedoras da cadeia offshore passará, segundo Azevedo, também pelo aumento na tomada de financiamentos. Programas como o Progredir e as linhas de crédito facilitadas, ofertadas por instituições como o Badesul, podem ser o começo da mudança dessa tradição.

    Revolução na história dos gaúchos
    Na manhã do dia 20 de setembro de 2007, enquanto nas ruas se comemorava a Revolução Farroupilha, uma outra revolução entrava pela barra da Lagoa dos Patos, na cidade de Rio Grande. 

    À medida que avançava, o casco do navio Settebello ia deixando promessas pelo caminho. Sobre ele seria construída, nos próximos meses, a P-53, primeira plataforma de petróleo montada no novíssimo pólo naval de Rio Grande. Assim começou a história da indústria naval do Rio Grande do Sul. Depois da chegada da P-53, entregue no final de 2008, outras plataformas já entraram em construção nos estaleiros. É o caso das P-55, já entregue, e P-58. O polo também produz os navios replicantes FPSOs que serão utilizados na exploração do pré-sal. A indústria se espraiou para outras cidades, fomentando a economia de toda a região. Além dos quatro estaleiros de Rio Grande, um quinto estaleiro está sendo projetado na cidade de São José do Norte. Até cidades distantes de Rio Grande, porém às margens dos rios Jacuí e Taquari e da Lagoa dos Patos estão participando desse novo momento da economia gaúcha.

    Fonte: Patrícia Lima – Brasil Econômico
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