Diário Popular: Demanda de um lado, oportunidade de outro

    Quem circula pelas ruas de Rio Grande consegue ver com frequência cartazes nos mais variados tipos de estabelecimento pedindo a mesma coisa, funcionários. As solicitações de contratação de profissionais englobam diversos setores da área de comércio e serviços. São lojas, restaurantes, salões de beleza e supermercados que tentam diariamente chamar a atenção da comunidade. O crescimento econômico motivado pelo advento do Polo Naval caracteriza o município como uma das grandes potências no Estado quando o assunto é desenvolvimento.
    Por outro lado, o panorama que traz a indústria oceânica como a menina dos olhos de Rio Grande e a construção civil como consequência sinaliza também a abertura de outra demanda em constante elevação – migração de profissionais para atuar no Polo. Com isso, outras áreas têm encontrado forte resistência da população rio-grandina que prefere sair em busca de novas condições de trabalho, deixando vários segmentos descobertos.
    Convivendo com a grande dificuldade em conseguir mão de obra para suprir a demanda, a gerente de uma loja de confecções, Vanusa Goularte, conta que, apesar da prioridade na contratação ser para a população local, está bastante difícil encontrar quem queira atuar no comércio.  Além disso, a gestora fala que outro agravante está na alta rotatividade dos profissionais que assumem as vagas e depois de um ou dois meses acabam pedindo demissão. “A gente vai contratando até encontrar alguém que fique, pois todos querem o Polo Naval e como muitos não são qualificados não ficam lá nem aqui”, ressalta.
    Migração
      
     Enquanto muitos rio-grandinos vislumbram apenas as oportunidades do Polo Naval, empresários precisam traçar alternativas para suprir o quadro de pessoal cada vez menor. Em uma das redes de supermercado da cidade, a estratégia adotada foi buscar mão de obra em Pelotas e região. De acordo com o supervisor de marketing, Luciano Leon Canteiro, não há como suportar a alta rotatividade que chega a cerca de 100 funcionários a menos mensalmente. A exemplo de outras empresas que enfrentam o mesmo problema, o primeiro passo foi reduzir os critérios de seleção onde tanto o grau de escolaridade quanto a experiência foram colocados de lado para ampliar as contratações. “Tivemos que começar a diminuir para abrir o leque”, afirma. Mas ainda assim, a quantidade de vagas continua maior do que a procura e os postos de trabalho são preenchidos com funcionários que precisam ser qualificados pelos próprios empregadores.
     
    Na rede, a captação do contingente de Pelotas começou em novembro do ano passado e até agora já chega a 136 pessoas. Atualmente, saem diariamente dois ônibus e um micro-ônibus para trazer os profissionais e distribuí-los nas duas lojas maiores, uma no Cassino, outra na cidade. O reforço também foi direcionado ao depósito e ao departamento de recursos humanos cuja missão é agilizar os processos seletivos. “São vagas que os rio-grandinos não querem preencher.” Canteiro esclarece que a medida não se trata apenas da cobertura do aumento do serviço durante a temporada, e sim, da reposição do efetivo que, além de já estar desgastado, atua com aumento da demanda motivada pelo crescimento do município.
    Para o supervisor de marketing é preciso ter cuidado com o aquecimento atual do mercado, pois não pode ser descartada a possibilidade de futuramente muitos dos profissionais que deixam o comércio precisarem retornar às funções antigas como aconteceu no passado.
    Atendimento posto em prova
    Segundo o gerente de uma das lojas da rede, Jonas Everton de Azevedo, profissionais especializados são os que mais faltam como padeiros, açougueiros e operadores de caixa. “O pessoal de Rio Grande quer mais é o Polo Naval, muitos se demitem para tentar uma chance lá”, observa. Azevedo destaca também que outro problema se refere à cobertura do atendimento nos horários de maior pico, ou seja, à noite, exato período em que a maioria dos funcionários de fora retornam a suas cidades e o atendimento continua com a queda em torno de 25% no quadro. Com relação à contratação de funcionários de fora, o gerente confirma a boa receptividade de trabalhadores da cidade vizinha. “Hoje o salário aqui é mais atrativo do que o de Pelotas.” Interessados em possibilidades de emprego em Rio Grande podem entrar em contato pelo telefone (53) 2125-2222, pelos ramais 2060 ou 2061.
    Oportunidade aproveitada
    A operadora de caixa, Tatiana Machado Pereira, de 37 anos, mora em Pelotas e trabalha há pelo menos quatro anos em Rio Grande. Para ela, a curta viagem de aproximadamente 60 quilômetros não é empecilho à sua rotina diária, pelo contrário, pois ela se considera satisfeita com o emprego que possui, mesmo em outra cidade. “Para mim é tranquilo, já estou até acostumada.”
    Na mesma situação, o empacotador André Luís Mullet, de 24 anos, também encontrou na resistência rio-grandina uma oportunidade de renda. Ele comenta que logo após ter conhecimento de vagas abertas em Rio Grande não perdeu tempo e aproveitou a chance. “Acaba sendo um pouco cansativo, mas gosto daqui e o salário compensa”, comenta.
    Para a também pelotense Linda Mara da Costa Novak, de 21 anos, a Noiva do Mar surgiu como a valorização que ela não encontrou em Pelotas. Cansada de tanto procurar emprego sem sucesso em sua cidade, Linda conta que foi contratada há 45 dias como auxiliar de abastecedora em uma rede de supermercados. Segundo ela, tempo suficiente para perceber o quanto a viagem pode ser promissora. “Me sinto valorizada, tenho interesse em permanecer aqui”, adianta.
    Com o mesmo contentamento, o auxiliar de supermercado, Adilson Permel Piedras Júnior, de 21 anos, acorda às 5h30min para sair do Balneário dos Prazeres, a fim de chegar a tempo no Centro e embarcar no ônibus rumo a Rio Grande. Apesar de só conseguir voltar pouco antes das 21h para casa, o jovem se considera satisfeito e com a porta que se abriu no setor financeiro começa a traçar outros planos em paralelo. “Rio Grande está crescendo muito e o Polo faz abrir vagas em outros setores, vou poder equilibrar emprego e estudo”, projeta o pelotense que diz já pensar em se mudar para a cidade onde trabalha.
    Sine confirma paradigma
    A preferência dos rio-grandinos pelo Polo Naval é confirmada pela agência local da FGTas-Sine, que dispõe de uma quantidade reduzida de postos para o comércio. Conforme a responsável pela captação de vagas, Mayara Guilherme, as pessoas que chegam até o serviço demonstram interesse por áreas cuja remuneração seja maior e possua condições de crescimento. Atualmente, dos mais de 100 empregos oferecidos na construção civil por mês, esse número não chega a 30 no comércio. Confirmando que a indústria oceânica e os setores a ela ligados detêm o foco da procura, Mayara diz acreditar que esta seja a razão dos comerciários não recorrerem mais à assessoria do órgão. Apesar da necessidade em empregar pessoas, as vagas não são divulgadas pela unidade. “A procura no Sine é por empresas que deem outras oportunidades. Quem quer o comércio vai direto nas lojas através dos cartazes”, aponta.
    Qualidade também é problema
    A proprietária de restaurante, Marília de Oliveira Vieira, relata que a maior dificuldade não está na quantidade de profissionais para contratar, mas sim na qualidade deles. Ela conta que desde a abertura do estabelecimento, conseguiu elevar de 15 para 250 refeições servidas diariamente. Porém, apesar da intensa procura do público, a microempresária decidiu não arriscar a ampliação do serviço. “As pessoas não têm compromisso com trabalho, não tem profissional de qualidade”, diz Marília, alegando não ter condições de ampliar o negócio sob a pena de não conseguir manter a qualidade do atendimento e perder a clientela.
    Diagnóstico deve direcionar ações
    Cientes de que o município passa por uma geração exponencial de empregos, o Poder Público tem como principal preocupação facilitar o acesso da população às oportunidades que despontam. Ainda em fase de diagnóstico da situação, a Secretaria de Desenvolvimento, Inovação Emprego e Renda pretende equilibrar prioritariamente o crescimento econômico com o social. De acordo com o secretário interino da pasta, Huberlan Rodrigues, é preciso conhecer detalhadamente os números que compõem a realidade empregatícia como um todo para elaborar políticas públicas focadas no preenchimento ordenado das vagas de emprego em Rio Grande. “Seria um erro muito grande tratar apenas do Polo Naval sem cuidar dos outros setores. É preciso ver o mundo do trabalho como um todo”, fala. De início, a edificação de um Centro Público de Desenvolvimento, Trabalho e Renda terá a proposta de abrigar diversos programas voltados para a qualificação profissional, além da averiguação das principais demandas do setor.
    Reflexão urgente
    Conforme o presidente da Câmara de Dirigentes e Lojistas de Rio Grande (CDL-RG,) Renato Lima, o momento é de readequação entre os empresários. Em sua avaliação, a migração de mão de obra para o Polo Naval traz transtornos, mas também envolverá avanços. A entidade tem trabalhado fortemente a necessidade junto aos 663 associados para incentivar a adoção de melhorias nas condições de treinamento, qualificação dos salários e benefícios oferecidos aos funcionários. A medida pretende minimizar a transferência de pessoal para a indústria oceânica. “Muitas vezes os benefícios deles são vendidos como Eldorados”, ressalta.
    Com relação à vinda de profissionais de fora para atuarem no comércio, Lima confirma a elevação do fenômeno que encontra nos trabalhadores pelotenses fortes candidatos, levando em conta a qualificação do contingente vindo da cidade vizinha. Além da carência atual, a projeção é de que mais de mil novos empregos surjam com a implantação dos dois shoppings centers que a Noiva do Mar deverá ter. Enquanto isso, permanece o questionamento sobre a segurança que leva tantos rio-grandinos a deixarem seus empregos para tentar a sorte no setor naval. “O trabalhador tem que olhar com cuidado e não ver apenas de imediato. Se tiver que voltar, será que os espaços já não estarão ocupados?”, observa.
    Fonte: Andressa Barbosa – Jornal Diário Popular

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