Energia eólica na Zona Sul: Nem tanto ao céu, nem tanto à terra

    Estou há alguns minutos observando a imagem acima e ainda não concluí se devo analisá-la sob uma ótica positiva ou negativa. Através dessa fotografia podemos ver a chegada a Rio Grande das pás que compõem as hélices das torres que servirão para gerar energia eólica. A energia vinda desta fonte abastecerá o Sistema Interligado Nacional (SIN). 

    Em um primeiro momento fiquei entusiasmado ao ver esta foto. Sim, os investimentos em parques eólicos serão concretizados, pensei eu. Estão em gestação ou construção, na região Sul do Estado do Rio Grande do Sul, vários empreendimentos deste tipo no momento. Chuí e Santa Vitória do Palmar, cidades até então superdependentes da atividade agropecuária, receberão os Parques Eólicos Verace, Minuano e Chuí, que somados gerarão 492 MW, potencial energético este que já foi adquirido pela Aneel em um dos últimos leilões de energia. 

    Já em Rio Grande estão sendo construídos: Complexo Eólico Corredor do Senandes e Corredor do Bolaxa (neste último já é possível observar a partir da praia do Cassino as torres sendo construídas). Somando os dois a expectativa é de que 262 MW de energia sejam adicionadas ao SIN. 

    No entanto, sob o aspecto econômico da região (não entrarei na questão ambiental ou do quanto de energia “prometida” realmente é entregue, pois alguns dos empreendimentos eólicos já entregues tem tido baixo rendimento por conta, sobretudo, da alternância do vento), alguns pontos me preocupam. 

    Tenho observado que grande parte das notícias veiculadas nos jornais da região são enviadas – e transmitidas pelos veículos de comunicação sem qualquer questionamento ou edição – por assessorias de imprensa de alguns stakeholdersinteressados em criar uma agenda positiva: empresas envolvidas no negócio ou políticos/entidades governamentais (em suas três esferas, importante ressaltar).

    Parque eólicos são grandes geradores de emprego apenas na fase de construção. Se somarmos as cidades envolvidas nos projetos da região (Chuí, Santa Vitória do Palmar e Rio Grande) chegaremos ao interessante número aproximado de quatro mil empregos diretos e indiretos gerados nesta fase. Não há dúvidas que trata-se de uma quantidade significativa de pessoas empregadas. Todavia é fundamental lembrar que, quando os complexos eólicos entrarem em operação, o número de empregos cairá drasticamente. O mais antigo parque eólico do Rio Grande do Sul, e símbolo desta nova forma de energia no estado, localizado em Osório, emprega hoje cerca de 100 pessoas.

    Por outro lado, é preciso comemorar o significativo aumento de receitas que os municípios envolvidos receberão. Esta diferença será percebida, sobretudo, em Chuí e Santa Vitória do Palmar. Rio Grande já tem um PIB alto (4º maior do Estado, para a 10ª cidade em população) e não notará, percentualmente, tanta diferença, ainda que em módulo o valor acrescido seja interessante. Dados divulgados recentemente mostram que o município do Chuí, por exemplo, receberá por causa desses investimentos, em impostos, 36 milhões de reais por ano a partir de 2016. Sem dúvida um valor relevante, e que por si só justificaria o entusiasmo com que estes investimentos exógenos foram recebidos.

    No entanto, entendo que a principal indutora de desenvolvimento desses investimentos está na fase de construção dos parques. Ao ver a foto que ilustra o início desse artigo, onde as pás das hélices chegam de navio a Rio Grande, me senti instigado a pesquisar sobre o assunto. 

    Pois bem. A francesa Alstom fabricará torres eólicas em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre (importante lembrar, a companhia não chegou “hoje” na cidade: possui ali há mais de 50 anos uma planta que produz transformadores e outros equipamentos elétricos). A Impsa, grupo oriundo da Argentina que fornece aerogeradores, tem fábrica em Suape (PE) e recentemente anunciou investimento de 100 milhões e que gerará 350 empregos diretos em… Guaíba, também na Região Metropolitana de Porto Alegre. Os aerogeradores do parque eólico do Chuí serão fornecidos pela espanhola Gamesa, contrato de R$ 843 milhões que envolverá também a operação e manutenção dos equipamentos. As obras civis do Corredor do Senandes serão executadas pela Seta Engenharia, empresa sediada em Concórdia (SC) que arrematou o contrato de aproximadamente 60 milhões de reais.

    Talvez eu não deva observar os investimentos eólicos na região de forma maniqueísta, como pode ter parecido no início deste artigo. Assim, a foto que me estimulou a escrever este artigo não seria analisada a partir de um viés positivo “ou” negativo, mas sim devam ser vistos os prós (que existem) e os contras (que também existem). 

    Marcelo Karam Nogueira é engenheiro graduado pela UFPel e acadêmico de Administração pela mesma Universidade. Desde 2012 edita o site Caminhos da Zona Sul.

     

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