Zero Hora: empresas direcionam projetos ligados a soja para municípios da Metade Sul

    Despertadas pela mudança de paisagem nos campos de pastagens da Metade Sul do Estado que agora dividem espaço com a soja , empresas ligadas ao agronegócio com bases sólidas no norte gaúcho se apressam em marcar território na nova fronteira agrícola.

    Por décadas considerada a metade econômica menos abonada do Rio Grande do Sul, a região se tornou o xodó dos investidores após o cultivo da soja ter provado que chegou para ficar. Só nos últimos dois anos, houve um acréscimo de 377 mil hectares cultivados com o grão, chegando a 1,3 milhão de hectares.

    O movimento sentido Norte-Sul é puxado por unidades de recebimento de grãos, sementes e fertilizantes e indústrias de beneficiamento com matriz nas Missões e no Planalto Médio. Com projetos guardados a sete chaves, empresas disputam espaço em locais estratégicos. Com 11 unidades de recebimento de grãos no norte gaúcho, a Agrofel Grãos e Insumos, do Grupo Ferrarin, prepara-se para instalar de quatro a seis unidades na Metade Sul.

    – Há muito espaço para explorar nessa região onde a soja expandiu nos últimos anos – avalia Wilson Ferrarin, fundador e presidente do conselho de administração da empresa.

    Criado em Palmeira das Missões, na década de 1970, o grupo atua no mercado de defensivos, sementes, fertilizantes e calcário e também recebimento e comercialização de grãos. Cauteloso ao falar sobre os novos investimentos, com receio de “alertar os concorrentes”, o empresário não revela os municípios onde serão instaladas as novas unidades, mas confirma que estarão concluídas para a próxima safra.

    – Durante quatro décadas, concentramos nossa atuação no Norte. Chegou a hora da mudança de rumo – resume Ferrarin.

    Os investimentos em silos, um dos principais problemas para armazenar a produção agrícola, devem ser os primeiros a mudar as paisagens na região sul gaúcha.

    – Já faltavam silos para armazenar a produção de arroz. Agora, com a soja, a demanda é ainda maior – aponta João Tadeu Vino, superintendente comercial da Kepler Weber, de Panambi, uma das principais fabricantes de silos e máquinas de limpeza de grãos do país.

    A expansão dos grãos para a Metade Sul fez com que as encomendas de silos aumentassem 15% no último ano, conforme o executivo. A perspectiva, em ano se safra recorde de soja, é de que o incremento seja bem maior em 2013.

    – Com novos investimentos na área, a tendência é de que o mercado cresça ainda mais – projeta Vino.

    O movimento tem gerado expectativa também entre os municípios onde a procura por terras para plantio de grãos está cada vez mais forte.

    – Precisamos consolidar a produção para atrair esses investimentos – diz Cesar Roberto Couto de Brito, prefeito de Pedro Osório e presidente da Associação dos Municípios da Zona Sul.  

    Diante do movimento de investidores do Norte para o Sul, empresas da região tratam de proteger seus territórios para não perder espaço. Há 10 anos no mercado, a Puro Grão deixou os limites de Pelotas. Três cidades próximas à sede receberão pontos de armazenamento: Bagé, Arroio Grande e São Lourenço do Sul. Na cidade da Campanha, foi adquirida uma área às margens da BR-293 que liga o município a Pinheiro Machado.

    A expectativa é que movimentação cresça acima de 100%: enquanto em 2012 foram armazenadas 1,2 milhão de sacas, para 2013 a previsão é que passe das 2,7 milhões. O número de trabalhadores também cresceu. No ano passado, 65 pessoas integravam o quadro da empresa. Agora, saltaram para 105.

    – Temos programas destinados ao arroz, mas é a soja que puxa esse desenvolvimento – conta Rubens Kern, engenheiro agrícola da empresa.

    Diretor técnico da Expoarroz, Rubens Silveira está convicto de que o crescimento da soja na Região Sul não é algo sazonal e trará benefícios ao agronegócio. Tradicionalmente forte no arroz, experiências com biotecnologia provaram a eficiência de plantar também outros grãos, o que deve fortalecer a renda dos produtores.

    Ao seguir o rastro da soja, indústrias de beneficiamento e de fertilizantes também se preparam para montar suas estruturas na região onde o plantio do grão mais do que dobrou nos últimos dois anos. Um dos endereços dos novos investimentos deve ser o distrito industrial de Bagé, onde o governo estadual negocia a venda de áreas a preço reduzido – R$ 2 mil o hectare.

    – Estamos em tratativas adiantadas com empresas de beneficiamento e de fertilizantes que têm projetos de investimentos na região – diz Nery dos Santos Filho, diretor do Departamento de Ações e Programas Especiais da Secretaria do Desenvolvimento e Promoção do Investimento.

    Nos 65 hectares do distrito, há apenas uma indústria instalada:um entreposto de recebimento de leite da BRF. Outra área do governo destinada a investimentos é o distrito industrial no porto de Rio Grande. As indústrias que gerarem créditos de ICMS podem ser beneficiadas também com incentivos adicionais ao Fundo Operação Empresa (Fundopem), com abatimento maior para os municípios da Região Sul.

    – Quanto menor for o índice de desenvolvimento do município em relação à média do Estado, maior é o incentivo. A política industrial do governo define o agronegócio como prioritário – aponta Santos Filho.

    PRIMEIRAS UNIDADES OPERAM SOMENTE COM GRÃO DA REGIÃO

    Enquanto as empresas se preparam para desembarcar na nova fronteira agrícola, quem se antecipou quer agora manter a posição na região. Com 44 unidades de recebimento de grãos no Norte e oito na Região Sul, a Camera irá investir R$ 7 milhões em uma nova operação com capacidade estática de 300 mil sacas.

    – Investimos na Região Sul quando os produtores estavam recém migrando para lá. Hoje, essas unidades operam apenas com produção local – afirma o superintendente da Camera, Roberto Kist, sem relevar o local do investimento previsto para 2014.

     Fonte: Joana Colussi e Rafael Divério – Jornal Zero Hora
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