Zero Hora: Polo de todos os sotaques

    Mesmo que as temperaturas estejam acima de 20ºC, a impressão é que basta entrar julho para que forasteiros de todas as partes do Brasil que vivem no Rio Grande do Sul sintam frio. Cariocas, paulistas, baianos, pernambucanos e piauienses acumulam cobertores, toucas e casacos pesados para suportar as baixas temperaturas. O frio, aliás, é o grande inimigo de todos os trabalhadores que tentam melhorar de vida no polo naval de Rio Grande, no sul do Estado.

    Estima-se que cerca de 10 mil pessoas de fora do Estado tenham chegado a Rio Grande nos últimos sete anos. Jairo Oliveira é um exemplo. Aos 27 anos, considera o frio seu pior inimigo. Trabalhador de uma empresa de hidrojateamento e pintura, usa touca, camiseta, moletom, camisa da empresa e casacão. Nos membros inferiores, embaixo da calça, usa o que chamam de “ralabela” – em referência às peças de ginástica muito usadas pelas mulheres na região.

    – O frio me faz repensar até as vantagens de ficar aqui. Olha, vou ser bem sincero, por mim, eu voltava para o Rio de Janeiro. Minha mulher está grávida. Ficamos falando o tempo inteiro no celular – comenta.

    O aparelho é o grande aliado para matar as saudades de casa. E, claro, para a mulher saber onde está, o que faz, que horas volta para o alojamento. É uma característica do pessoal de fora: o telefone está sempre na mão.

    No mesmo alojamento em que Jairo mora também vive Gilberto Teixeira, 35 anos. É a terceira vez que vem para Rio Grande, mesmo assim não consegue se acostumar ao frio. Faz questão de mostrar a calça térmica por baixo do macacão da empresa. Ao contrário do colega, está satisfeito com a cidade. Para matar a saudade da família, aproveita a folga de cinco dias que a companhia concede a cada 90 dias de trabalho.

    Em seu caso, o benefício é ainda um pouco mais estendido: pode ficar 10 dias em casa. Caso a empresa continue atuando no polo naval gaúcho por mais alguns anos, pretende trazer a família e abandonar o Carandiru (apelido do alojamento onde mora ao lado de quase outros cem trabalhadores).

    – A empresa incentiva o pessoal a trazer família, adianta salários para alugarmos alguma casa. Estou pensando. Aqui tem muito homem e acaba virando bagunça – diz.

    Casas serão vistoriadas pelo Ministério Público

    Em geral, quem vem de fora do Estado e trabalha em empresas maiores vão para apartamentos ou alugam postos individuais. Já os que atuam em algumas companhias terceirizadas são colocados em alojamentos improvisados, alugados pelas próprias empresas.

    Para servir de moradia a trabalhadores, foram adaptados locais que já abrigaram colônia de férias, delegacia de polícia, casas noturnas e lojas comerciais.

    O Ministério Público do Trabalho deverá fazer uma vistoria em diversos locais, já que algumas casas são alvo de queixas de trabalhadores, que relatam más condições de habitação.

    Em uma casa mais organizada, 14 trabalhadores de uma empresa de pintura industrial não precisam se acotovelar em pequenos espaços nem dividir os varais para estender as roupas. Na parte da frente da casa, três sofás, geladeira, televisão e um Playstation. Moram no centro de Rio Grande, mas, apesar disso, quase não conhecem nada da cidade.

    – Queríamos jogar bola e não achamos nenhum campinho – reclama o piauiense Francisco Neto, 25 anos.

    Ao ser informado que existem campos para jogar gratuitamente a menos de um quilômetro de onde moram, aponta uma de suas principais queixas aqui no Estado: quase não receberam informações sobre a cidade. Assim, os trabalhadores conhecem apenas o supermercado e o porto velho e frequentam uma ou outra festa. De resto, fazem o caminho empresa-casa (de ônibus) e passam o tempo livre no alojamento.

    A churrasqueira, além de marcar a união e a confraternização dos trabalhadores também ajuda a esquentar o ambiente. Assam carne pelo menos quatro vezes por semana. A conversa sobre as maneiras de espantar o frio se estende pelo lado dos cariocas, com o acúmulo de roupas. Até que o paulista Fabiano Teixeira, 30 anos, admite:

    – Também tomamos uma cachacinha, né? Mas é só para dar aquela esquentada.

    Além do frio e da saudade de casa, Fabiano traz à tona um assunto polêmico: o preconceito. Em Rio Grande, afirma ter sido vítima de xingamentos. E tem uma justificativa curiosa:

    – O pessoal aqui tem preconceito contra todo mundo que vem de fora. É tudo por causa dos baianos. Eles fazem uma bagunça gigante e todo mundo leva a culpa. Se não for daqui, é baiano.

    Fonte: Rafael Divério – Jornal Zero Hora
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