Jornal Zero Hora de domingo: “Da cebola aos navios”

    O forasteiro que desembarca em São José do Norte, após meia hora de viagem numa lancha cujo motor expele barulho e cheiro de óleo diesel, depara em terra com carroceiros a oferecer transporte. Eles acomodam pessoas e bagagens na carreta de duas rodas, estugam o cavalo apenas com o estalo aéreo do relhador e rumam ao destino solicitado.

    São 12 freteiros, como Everton Solano Viveiro, que aguarda os passageiros de Rio Grande no paradouro das carretas, numa quadra sinalizada e exclusiva, onde automóveis não podem estacionar. Aos 22 anos, já pai de cinco filhos – dois são enteados –, Everton herdou o ofício do avô, Ademir, e depois recebeu as rédeas do negócio do pai, Volnei.

    – Desde os 10 anos que trabalho de carroceiro – conta o jovem.

    É esta cidade acolhedora, singela como um presépio ao preservar o casario português do século 19, em cujas ruas transitam carroças, que está recebendo um dos maiores estaleiros da América do Sul. As obras da Estaleiros do Brasil SA (EBR) avançam, com terraplenagem e canalizações, em área de 170 hectares – 4,5 vezes mais do que o Parque da Redenção de Porto Alegre.

    A EBR tem potencial para gerar 25 mil empregos – toda a atual população de São José do Norte. Desse total, só 5 mil serão diretos. O estaleiro deverá operar no final de 2014, com o início da construção da primeira plataforma marítima de exploração de petróleo em alto-mar, a P-74. Se não houver reviravoltas, trará prosperidade econômica – e transtornos que podem desfigurar o bucólico povoado.

    20% de analfabetismo e o 10º pior IDH do Estado

    O carroceiro Everton não imagina como o estaleiro mudará o lugar onde nasceu. Ao contrário de outros trabalhadores, não se candidatou para cursos profissionalizantes na EBR. Prefere continuar na boleia, ao passo do cavalinho de nome Alejandro, apurando R$ 60 por dia com os fretes.

    – Até agora, não influenciou minha vida. É cada um por si, e vamos nos virando – relata, preocupado em sustentar a família.

    Entre as autoridades, prepondera um precavido otimismo. O prefeito, Zeny dos Santos Oliveira (PSDB), diz não ter vergonha em admitir o quão São José do Norte é pobre. Tem o 10º pior desempenho no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado. Quase 20% da população é analfabeta – o abandono da escola já assusta no Ensino Fundamental.

    Zeny não tem dúvidas de que São José do Norte será rica. A EBR significa mais impostos, empregos, abertura de restaurantes, hotéis, lojas, construção de prédios. Poderá representar melhores escolas, postos de saúde, hospital qualificado e transporte público. Mas o prefeito é sincero ao avisar:

    – Não estamos preparados, assim como Rio Grande não estava ao receber o polo naval.

    O estaleiro é bem-vindo. Dezenas de tratores, caminhões e cerca de 75 trabalhadores preparam o terreno. Pelo que se desenha, São José do Norte ficará com plano diretor semelhante ao da catarinense Laguna, que conservou o centro histórico e cresceu para os lados. O miolo arquitetônico da cidade é intocável. Crescer, sim, mas sem demolir o passado que remonta ao longínquo 1763 das disputas de fronteiras com os espanhóis. O presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São José do Norte, José Fernando Costamilan, espera que a EBR seja parceira.

    – Queremos o desenvolvimento, mas também a preservação de nosso patrimônio e cultura – ressalta.

    Devido ao isolamento (está na Região da Península, entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos), São José do Norte resguardou a arquitetura e os costumes dos povoadores açorianos e africanos. Há temor de que grupos vulneráveis, como pescadores e plantadores de cebola – as principais atividades econômicas até agora – percam o que Costamilan define como “patrimônio imaterial”, o saber transmitido por gerações. A direção da EBR não quis se pronunciar sobre seus planos.

    Há efervescência na cidade com a chegada da EBR. O prefeito Zeny Oliveira informa que uma rede hoteleira comprou área para se instalar. Um grupo empresarial deve construir um condomínio residencial em 190 lotes. Estradas estão sendo abertas, tudo ao redor do futuro estaleiro. Um anel rodoviário deve contornar o centro histórico.

    A prefeitura trata de regularizar 6,4 mil propriedades no bairro Tamandaré. Nas áreas mais disputadas da cidade, o preço do terreno subiu. Não se acha mais um pedaço de chão por menos de R$ 30 mil – pequena fortuna no município.

    Empresários investem. Suedi Silveira Fonseca duplicará os oito quartos da pousada, além de abrir garagem aos hóspedes. À espera dos estrangeiros da EBR, restaurantes são ampliados. Dona do Brisamar, Marlene Venturin de Carli está vendendo 120 almoços diários (eram 90), em razão de operários e técnicos do estaleiro.

    – Ainda não precisei contratar mais funcionários – observa Marlene, elogiando os novos clientes pelos bons modos à mesa e pela disposição no garfo.

    O prefeito Zeny avalia que os nortenses ainda estão cautelosos. Esperam que o estaleiro tome forma, seja irreversível, para então contrair empréstimos bancários e empreender.

    – Ficam na insegurança de investir. Construir uma moradia para quem? Abrir um restaurante para quem? – diz Zeny, lembrando que os nortenses nunca haviam passado por esse tipo de experiência antes.

    Fonte: Nilson Mariano – Caderno Dinheiro – Jornal Zero Hora
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