Soja resistente a áreas de várzea é realidade no Estado

    Considerada uma das melhores opções para alternância com o arroz, a soja garante melhoria da lavoura, fixação de nitrogênio no solo e uma relação custo/benefício vantajosa para o produtor, mas com uma deficiência importante a ser considerada: a baixa tolerância a áreas encharcadas. Buscando a melhor variedade do grão para plantio em várzea, a pesquisadora do Instituto Rio-Grandense de Arroz (Irga) Cláudia Lange coordena um estudo que resultou em uma nova cultivar, a TECIrga 6070 RR, variedade de soja geneticamente modificada que reúne uma série de características que asseguram ao agricultor menor risco de perda, entre elas, tempo médio de maturação e baixa ocorrência de fitóftora – doença que se propaga facilmente em região alagável e que causa podridão da planta.

    A soja já vinha sendo cultivada, com maior ou menor sucesso, pelos arrozeiros, destaca a pesquisadora. “Em anos mais secos, sem excesso hídrico, é fácil cultivar e obter bons resultados com soja. Os anos em que há mais umidade é que são difíceis.” Cláudia explica que a soja é de uma família botânica diferente da do arroz, condição que torna ainda mais atrativa a alternância entre as duas culturas. “Isso para a rotação de cultura é o que dá maior complementariedade, porque os vermicidas que são usados na soja são efetivos, principalmente, para monocotiledônias como o arroz, capim-arroz e arroz vermelho. Isso já facilitava o controle dos riscos do arroz, que é o que a gente queria, e, por ser de família botânica diferente, a soja não é hospedeira das doenças e nem das pragas do arroz”, detalha, lembrando que a soja RR é uma ferramenta ainda mais eficiente para garantir esses benefícios.

    As razões para investir na soja, acrescenta Cláudia, vão além. “Por ser uma leguminosa, ela é rica em nitrogênio, então, tem um custo de produção menor, por exemplo, do que o milho, e a palha que fica como resíduo da soja deixa nitrogênio, que beneficia a futura cultura do arroz.” A pesquisadora destaca que, além de garantir mais segurança no cultivo de soja em terras baixas, a pesquisa abriu “a perspectiva de trabalhar com outras espécies produtoras de grãos, que, antes, a gente considerava impossível. O estudo da soja mostrou que, sim, é possível fazer a rotação com outras espécies que também são bastante sensíveis, como o milho e o trigo”. Mesmo com o início de pesquisas voltadas para outras espécies, os estudos em relação à soja prosseguem, destaca Cláudia. “Em um primeiro momento, buscamos as características básicas. A nossa próxima ambição é ter gene de resistência às lagartas e, num segundo momento, esse gene de resistência para ferrugem e, na medida do possível, sempre avançar na questão da tolerância ao excesso hídrico.”

    Manejo do solo contribui para bons resultados

    O estudo promissor do Irga é reflexo de uma pesquisa abrangente, que levou em conta não só a necessidade de chegar a uma nova variação de soja, mas também a qualidade do manejo do solo. “O entendimento na época em que o estudo foi iniciado, em 2004, era de que a rotação com a soja não ia para frente por falta de material genético adaptado. Muito rapidamente, em questão de quatro safras, notamos que estávamos no caminho certo, porém era preciso trabalhar não só a parte de genética, mas também a de manejo”, detalha Cláudia Lange, mencionado a esfera da pesquisa focada no estudo do solo e conduzida pelo pesquisador Anderson Vedelago.

    “Adaptar soja à várzea é a minha função, e adaptar a várzea à soja é a função do Anderson”, brinca, lembrando que, para ser eficiente, o cultivo tem que considerar também o manejo adequado do ambiente. Com a variedade já registrada, o próximo passo é a chegada das sementes aos produtores. Cláudia destaca que, inicialmente, o Irga vai manter 50 lavouras demonstrativas, já acordadas com produtores de arroz selecionados, que terão área de produção de 15 hectares. Os resultados da pesquisa, em relação ao manejo do solo, já vêm sendo propagados para os produtores durante treinamentos, roteiros técnicos e dias de campo. As lavouras demonstrativas, que representam uma área de 750 hectares, serão outro caminho para multiplicação dos benefícios do cultivo e servirão para disseminar a prática entre os produtores. “Neste primeiro ano, não temos muitas sementes, estamos fazendo a multiplicação, mas, para a safra 2014/2015, chegaremos a aproximadamente 90 mil hectares”, estima a pesquisadora.


    Fonte: Jornal do Comércio
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