ZH especial Soja na Metade Sul, parte I: Soja semeia novas cores nos campos e na economia

    Acostumado com a terra vermelha característica do norte gaúcho, Alfrani Silvestre trocou a região de origem para produzir em um solo mais úmido e arenoso em São Gabriel, na Campanha. Com dívidas acumuladas em safra frustrada no passado, Rogério Dagostini se aventurou 700 quilômetros distante de casa para recomeçar a vida em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. Ricardo Zart, de família tradicional de arrozeiros e pecuaristas, colocou a atividade dos antepassados em segundo plano para investir nas lavouras de soja em áreas até então ocupadas por pastagens em Bagé e Dom Pedrito.Com experiências diferentes e motivações semelhantes, produtores que deixaram o Norte em busca de terras mais extensas e baratas e arrozeiros e pecuaristas que decidiram verticalizar a produção fizeram com que a Metade Sul ganhasse nova configuração econômica nos últimos cinco anos.

    De 2009 a 2014, a área ocupada com o grão na região aumentou quase 200%. Com os 740 mil hectares de soja cultivados hoje em 41 municípios da Campanha, Fronteira e Sul migraram também indústrias, comércios e serviços ligados ao agronegócio.

    O avanço da oleaginosa nessas regiões deverá fazer com que o Rio Grande do Sul tenha nova supersafra do grão neste ano, com a previsão de chegar a 13,2 milhões de toneladas. Grande parte da expansão na Metade Sul se deu em áreas arrendadas por pecuaristas a agricultores que não conseguem expandir as lavouras no Norte, onde um hectare disputado chega a custar até R$ 60 mil.

    O caminho foi seguido por Alfrani Silvestre, 38 anos, natural de Vista Gaúcha, próximo à divisa com Santa Catarina. Há três anos, o produtor arrendou 780 hectares em São Gabriel e Santa Margarida do Sul, sendo 180 hectares em área de várzea e o restante em coxilha.

    — Aqui a terra é mais úmida. Mas nada que uma correção de solo e adaptação de máquinas não resolvam — destaca.

    No período da safra, o produtor divide o tempo entre as lavouras do Norte e do Sul. A residência e a família ainda estão fixadas em Vista Gaúcha. Filho de produtores rurais com descendência italiana e trajetória no cultivo da soja, Silvestre tem perfil comum entre os agricultores que desbravam a nova fronteira agrícola. Eles ajudam a mudar o perfil de cidades que há décadas concentravam a economia na monocultura do arroz e na pecuária de corte.

    — Hoje, o arrozeiro, o sojicultor e o pecuarista estão muito integrados, fazendo a economia girar de forma mais dinâmica — destaca o presidente do Sindicato Rural de São Gabriel, Tarso Teixeira.

    Depois de mais do que duplicar a área plantada com soja, São Gabriel entrou em 2009 para o seleto grupo de 40 municípios gaúchos com Produto Interno Bruto (PIB) superior a R$ 1 bilhão. Em 2011, último ano atualizado, a soma de riquezas ficou um pouco abaixo desse valor, embora ainda superior a anos anteriores.

    O dinamismo da nova economia é percebido na chegada à cidade, pela BR-290. Já no entorno do trevo é possível ver empresas como revendas, comércio de insumos e silos de cerealistas.

    — É um dinheiro que troca de mão. A soja é indutora de obras, impactando na renda e na qualidade de vida das famílias — destaca o prefeito de São Gabriel, Roque Montagner, acrescentando que há ainda 100 mil hectares agricultáveis para explorar no município.

    Rebanho ao som das colheitadeiras

    Na região historicamente tomada por lavouras de arroz e pecuária de corte, a soja sempre foi uma cultura secundária — explorada apenas para aumentar a produtividade do cereal ou criar resteva para pastagem. Com a valorização cada vez maior da oleaginosa, os papéis se inverteram nos últimos anos. O espaço para os animais encolheu, e a área de arroz estagnou.

    — O que era uma atividade para rotação ganhou espaço. Até porque, diferentemente da soja, o arroz depende de condições hídricas para aumento de área, por ser uma cultura 100% irrigada e com custos bem maiores — destaca Paulo Cezar Lederes, presidente da Associação dos Arrozeiros de São Gabriel.

    Se a área de arroz permanece a mesma, são as pastagens de verão que diminuem para dar lugar à oleaginosa. Filhos de arrozeiros e pecuaristas, os irmãos Ricardo e Ivo Zart vão ampliar o cultivo da soja de 450 para 700 hectares em Bagé. Para isso, 400 cabeças de gado das raças hereford e braford serão transferidas para outra área em Dom Pedrito. As lavouras de arroz da família, cultivadas pelo avô desde a década de 1950, foram arrendadas há dois anos.

    — Optamos pela soja por ser mais rentável e dar menos trabalho. Com o arroz, tínhamos muito gasto e dificuldade em encontrar funcionário — conta Ricardo Zart, 34 anos.

    Com áreas próprias, os irmãos Zart conseguem investir nas propriedades, com análise diferenciada de solos — em áreas de coxilha e de várzea — e com irrigação. Na próxima safra, pretendem ter 350 hectares irrigados com pivôs centrais — metade da área cultivada com o grão.

    — Tivemos três bons anos de chuva, mas uma hora a seca virá, temos de estar preparados — afirma Zart.

    Três ondas até acertar o ponto

    A migração da soja para a metade sul do Estado teve três grandes ondas: na década de 1980, anos 2000 e nos últimos cinco anos — quando a frustração do passado foi apagada. A primeira tentativa de cultivar o grão em áreas de campo e de várzea não teve sucesso pela falta de tecnologia.

    — Depois, no início dos anos 2000, o pessoal que começou a plantar recuou por causa de safras seguidas com estiagem — lembra Gervásio Paulus, diretor técnico da Emater.

    Um dos pioneiros no plantio de soja em Jaguarão, no extremo sul do Estado, Rogério Dagostini, 38 anos, chegou na região em 2005, quando ouviu de dezenas de pessoas:

    — Volta para tua região que aqui não dá soja — lembra.

    Com mais de R$ 1 milhão de dívida na mala, acumulada em safra frustrada de milho em Esmeralda, no Nordeste, distante mais de 700 quilômetros da cidade fronteiriça, Dagostini seguiu adiante. Além do receio, teve de enfrentar a resistência da mulher, Ana Letícia Boscari Vargas, 30 anos, que não queria se mudar.

    Logo na primeira safra, Dagostini enfrentou uma estiagem. Só a partir de 2008, quando começou a fazer correção de solo e testar cultivares de ciclos diferentes, conseguiu melhorar os resultados. Neste ano, colheu uma média de 60 sacas por hectare — o dobro de quando começou a plantar na região. Hoje, arrenda 1,7 mil hectares e tem outros 320 hectares próprios.

    Fonte:
    Texto – Joana Colussi / Jornal Zero Hora
    Foto – Fernando Gomes / Agência RBS



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