ZH especial Soja na Metade Sul, parte II: Renda e emprego no meio urbano é reflexo do avanço do grão na região

    Enquanto a soja muda o cenário de campos tradicionais de pecuária no sul gaúcho, o comércio das cidades também se transforma. A nova economia na região desponta em negócios e investimentos que não param de crescer. Em torno do comércio e de obras, a geração de emprego e renda faz com que o grão ultrapasse os limites da zona rural para chegar ao meio urbano.Em Bagé, as principais marcas de máquinas e equipamentos agrícolas disputam clientes expondo tratores, colheitadeiras, plantadeiras e pulverizadores. Inaugurada há pouco mais de um mês, uma revenda da John Deere precisou buscar trabalhadores em empresas concorrentes para conseguir montar o quadro de funcionários. Entre as 10 pessoas contratadas até agora, a maioria veio de outras cidades para suprir a carência de mão de obra.— Estávamos procurando mecânicos para a oficina desde novembro do ano passado — conta Ivan Carvalho Cardoso, supervisor de serviços da unidade de Bagé da Sistemas Mecanizados Verdes Vales.

    A presença de novos negócios ligados à agricultura e consequente geração de empregos é percebida também logo na chegada a São Gabriel. Além de silos de cerealistas sendo erguidos às margens da BR-290, revendas de máquinas e insumos cercam o trevo da cidade.

    Multinacional e cooperativas montam parceria para lojas

    Uma das últimas empresas de máquinas a se instalar na cidade foi a Case IH, em parceria com a Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto (Cooplantio) — que abriu outras cinco revendas da marca na metade sul do Estado nos últimos anos.

    — Demos pririodade a municípios onde a multinacional ainda não estava presente e onde a soja avançou de forma significativa nos últimos anos — destaca Marcelo Caggiani, gestor da filial de São Gabriel da Cooplantio.

    Em cada nova revenda da marca na região, onde colheitadeiras de grande porte chegam a custar mais de R$ 1 milhão, foram empregados em média 15 trabalhadores.

    Negócios na proporção das colheitas

    Com uma das maiores áreas plantadas com soja na região, quase 80 mil hectares, Dom Pedrito colhe resultados proporcionais à safra a cada ano. Seja em negócios ligados ao setor ou no comércio em geral, o município ganhou um novo perfil econômico com a diversificação da atividade agrícola.

    Somente na pequena Rua 7 de Setembro, três revendas de máquinas fazem com que o produtor consiga comparar preços e produtos. No rastro da soja, o município também atrai serviços e negócios de jovens empreendedores.

    — Montamos uma empresa com espírito de cooperativa, vendendo o insumo e prestando assistência técnica — explica Rodrigo Alves Vieira, gerente comercial da Sabiá Agroinsumos, aberta há mais de um ano.

    Para não depender do tempo, produtores investem em irrigação

    Caracterizada por estiagens frequentes no verão, a Região Sul foi beneficiada nos últimos três anos por volumes generosos de chuva nos meses de calor. Neste ano, por exemplo, escapou praticamente ilesa das variações climáticas que reduziram a produtividade da soja no Estado — ao contrário do Norte gaúcho.

    — Choveu 733 milímetros em janeiro, fevereiro e março. Isso é totalmente atípico aqui para nós. A média histórica não passa de 100 milímetros por mês — destaca Elói Pozzer, chefe do escritório da Emater em Bagé.

    As precipitações garantiram produtividades satisfatórias na região, acima de 40 sacas por hectare. Quem não quer colocar a produção nas mãos do tempo, começa a investir em irrigação. Nos 270 hectares de soja cultivados na comunidade de Ponche Verde, no interior de Dom Pedrito, Amauri Marchezan, 77 anos, tem 50 hectares irrigados com pivô central. E os planos, encabeçados pelo filho Elvio Marchezan, 48 anos, é de aumentar a área irrigada para garantir boa produção mesmo em anos de seca.

    — Não podemos ficar dependendo de São Pedro sempre — disse Amauri, que junto com a soja planta 130 hectares de arroz e cria cerca de 1,7 mil cabeças de gado da raça braford.

    A irrigação nas lavouras de soja avança a passos lentos na Metade Sul. Isso porque grande parte das terras cultivadas com o grão são arrendadas.

    — Normalmente a irrigação é feita em áreas próprias, por se tratar de investimento a longo prazo — explica Pedro de Oliveira, proprietário da Irrigasul, empresa voltada à sistemas de irrigação.

    Em Dom Pedrito, por exemplo, apenas três mil hectares de soja são irrigados — percentual de 3,7% de toda a área cultivada no município. O espaço para crescer é justificado pelos ganhos de produtividade, diante do investimento médio de R$ 5 mil por hectare. Conforme Oliveira, as áreas irrigadas na região têm alcançado médias de 70 sacas por hectare — 75% a mais do que nas áreas de sequeiro.

    Fonte:
    Texto – Joana Colussi / Jornal Zero Hora
    Foto – Fernando Gomes / Agência RBS



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