AZEITONA É NOVA APOSTA PARA DIVERSIFICAR CAMPO GAÚCHO

    oliveiras

    Guilherme Daroit – JORNAL DO COMÉRCIO

    Já reivindica o cancioneiro popular a ideia de que, no Rio Grande do Sul, “tudo que se planta, cresce”. A frase pode ser ufanista, mas não parece estar tão longe assim da realidade. Prova disso é que, há pouco mais de uma década por aqui, por exemplo, até as oliveiras, tradicionais plantas mediterrâneas, passaram a endossar o imaginário. Crescendo ano após ano em área plantada, a olivicultura dá indícios de que veio para ficar, abandonando os fantasmas de tentativas frustradas anteriores e colocando o Estado no mapa dos melhores azeites do mundo.
    Os números ainda são pequenos. Neste ano, se confirmadas as expectativas, pela primeira vez o Rio Grande do Sul passará dos dois mil hectares plantados com oliveiras. Nem por isso, porém, deixa de ser impressionante: em 2006, segundo dados da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação (Seapi), a área não passava dos 80 hectares. Há quinze anos, então, praticamente beirava o zero, situação mais próxima da realidade tradicional brasileira que, embora seja um dos grandes mercados da azeitona, nunca dominou a sua produção.
    Não foi por falta de tentativas. Segundo o engenheiro agrônomo Tailor Garcia, da Emater, desde a fase imperial algumas oliveiras foram trazidas ao País por Portugal, um dos tradicionais produtores da fruta. No Estado, os primeiros pés chegariam, de maneira esparsa, apenas no século XIX, com os imigrantes europeus. E até uma tentativa oficial do governo gaúcho, com o Serviço Oleícola, já na década de 1940, espalhou mudas e incentivos fiscais para fomentar a cultura por aqui. Todas elas, porém, sem sucesso e sem deixar conhecimento.
    A situação começaria a mudar por volta de 2002, quando, por iniciativa pessoal, alguns produtores plantaram os primeiros hectares em Caçapava do Sul e Cachoeira do Sul. O maior impulso viria três anos depois, quando, com recursos de programas estaduais para pequenos produtores, um grupo de 25 agricultores resolveu apostar na olivicultura. Que, daí em diante, nunca mais parou.
    Até o último mês de novembro, segundo a Emater, já eram 139 os olivicultores no Rio Grande do Sul, espalhados por 55 municípios. Eles abastecem seis indústrias de extração, com doze marcas conhecidas de azeite com sotaque tipicamente gaúcho. Números que só tendem a aumentar,já que pelo menos dois terços dos pomares, segundo o coordenador da Câmara Setorial da Olivicultura e do Programa Estadual de Desenvolvimento da Olivicultura (Pró-Oliva), Paulo Lipp João, ainda não entraram em produção. Pelo menos mais três indústrias têm inauguração prevista para 2016.
    Embora muitas interrogações ainda persistam – principalmente quanto à volatilidade da produção, que intercala anos bons e ruins, quem adere agora já receberá um sistema muito mais preparado do que há uma década atrás. “Foram anos de muitos erros e acertos, em que pesquisa e assistência técnica tiveram que correr atrás”, conta João. Um passo por vez, foram criados grupos de pesquisa e extensão, a Câmara Setorial e, por fim, o Pró-Oliva, todas iniciativas que, quase tateando no escuro, uniram empresas, governo e entidades de pesquisa para garantir a adaptação da cultura exótica ao Estado.
    “É uma sequência de dez anos de trabalho, no qual se chegou a esse ponto necessário para estimular o crescimento com acompanhamento”, defende o secretário da Agricultura, Ernani Polo. “Vemos a cultura com boa expectativa, pois pode se encaixar em áreas sem outras aptidões. E o potencial é imenso. Se conseguirmos dobrar a produção em poucos anos, já será um grande avanço”, continua o titular da pasta. Polo ressalta ainda que, após consolidado o pomar, a cultura pode ser consorciada com a ovinocultura, gerando duas fontes de renda ao produtor.

    Clima, umidade e solo privilegiam oliveiras na Campanha e na Fronteira

    Não foi tão fácil dominar o manejo das oliveiras no Estado. Pouca coisa restou das recomendações que vieram de fora, junto com as primeiras importações de mudas na década passada. Técnicas de adubação e correção de solo, de poda e mesmo de espaçamento entre os pés, trazidas da Espanha, logo se mostraram ineficientes para a realidade gaúcha.
    “Um dos principais erros cometidos pelos espanhóis foi a ideia de que podia-se plantar apenas uma variedade”, conta o coordenador do Pró-Oliva, Paulo Lipp João. Na prática, ficou comprovada a necessidade de outras espécies no mesmo pomar para ocorrer a polinização. As diferenças foram encontradas, principalmente, pela fertilidade do solo gaúcho, muito diferente dos terrenos pobres de boa parte dos países produtores. Muito ácidos, os campos daqui também precisam passar por correções que os tornem mais próximos aos do Mediterrâneo, que são alcalinos.
    “Lá fora, eles têm áreas em que a fertilidade é tão baixa que plantam um pé colado no outro, porque as oliveiras não crescem. Aqui, descobrimos que têm de ser mais afastados, pois se desenvolvem, e muito”, conta Daniel Aued, diretor da Olivas do Sul, de Cachoeira do Sul.
    A empresa passou pelo menos dois anos, de 2004 a 2006, estudando esses pormenores antes de plantar seu primeiro pomar, de 12 hectares, que comprovou o potencial do Rio Grande do Sul para a cultura. “Plantamos preparados para ter produção em oito anos, como acontece nos principais países”, conta Aued. As primeiras frutas, porém, apareceram bem antes, em três anos e meio.
    A situação para quem se ingressa pela cultura ficou mais fácil desde 2009, com a divulgação de um zoneamento agroclimático específico para oliveiras desenvolvido pela Embrapa Clima Temperado. No estudo, a instituição dividiu o Estado em três: onde o plantio é preferencial e indicado (primordialmente Campanha e quase toda região da Fronteira), locais não recomendados (Litoral, leito do Rio Jacuí e Campos de Cima da Serra), e regiões em que é apenas tolerado (Centro-Norte).
    Entre as necessidades das oliveiras, segundo o levantamento, estão climas pouco chuvosos, escassez de frio e, principalmente, umidade limitada, características que não são toleradas pela planta. Por isso, devem ser evitados terrenos de baixada, onde se forma nevoeiro, e, principalmente, solos alagados. “Não é algo que eu possa plantar e só voltar quatro anos depois para colher; precisa de muito cuidado e manejo”, continua Aued, otimista com os resultados, que levam a crer que o Estado tem vocação muito grande para o cultivo.
    Por suas características climáticas, o Rio Grande do Sul também teria um potencial em tamanho de área maior do que outros estados, como Minas Gerais e São Paulo. Embora também passem pelo processo de implantação da olivicultura, esses estados estariam limitados às áreas da Serra da Mantiqueira. “Somos o maior produtor de azeitona e de azeite, em número de indústrias, em área e em potencial”, analisa o engenheiro agrônomo da Emater Tailor Garcia.

    Oscilação na produção ainda é um dos desafios

    Entre as barreiras que ainda precisam ser dominadas pelos produtores gaúchos está, principalmente, uma oscilação incomum na produtividade. “Temos tido muita alternância de eficiência, que a pesquisa ainda tenta achar explicações”, argumenta o coordenador do Pró-Oliva, Paulo Lipp João. No caso da produção gaúcha de azeite, por exemplo, os volumes chegaram a 23,5 mil litros em 2012 e 33 mil litros em 2014, intermeados por quantias muito menores em 2011 (6,3 mil litros), em 2013 (7 mil litros) e em 2015 (11,1 mil litros). A colheita de 2016, encerrada em março, deve gerar cerca de 30 mil litros.
    “Nem tudo são flores. É uma opção, mas ainda nos falta conhecimento”, agrega João. “É uma cultura que ainda engatinha e começa a querer caminhar”, brinca o coordenador.
    Disciplinas específicas em universidades, que agora começam a aparecer, também seriam necessárias para garantir que o conhecimento já acumulado passe a chegar nas pontas, na formação de técnicos agrícolas, por exemplo. Mesmo assim, o trabalho a campo recebe reforços. No fim de 2015, a Emater capacitou 35 técnicos de várias regiões para atender aos olivicultores. No mês passado, outros 20 profissionais de prefeituras e outras entidades passaram pelo treinamento.

    Aposta é em qualidade superior

    Marchetti diz que, quanto antes o produto for consumido, melhor o seu sabor
    A produção gaúcha de oliveiras tem crescido, mas continua ínfima perante o consumo de azeite no Brasil. A demanda nacional do produto passou de 13,5 mil toneladas, em 1991, para um auge de 73 mil toneladas, em 2013, segundo dados do Conselho Oleícola Internacional (IOC, na sigla em inglês). Quase tudo, no entanto, é importado, percentual que ultrapassa os 99,9%. Mesmo que o azeite gaúcho quisesse competir nesse nicho, não haveria volume para abastecer o grande varejo. A solução, então, foi apostar em uma faixa de maior valor agregado.
    As 12 marcas reconhecidas pela Seapi, além do sabor, reivindicam ter mais polifenóis antioxidantes do que os importados. “O azeite, quanto mais rápido for extraído, melhor”, comenta Rafael Marchetti, diretor da Tecnolivas, de Barra do Ribeiro, produtora do azeite Prosperato. Além disso, ao contrário do vinho, quanto antes for consumido, melhor. “Por isso, há uma frase que diz que o melhor azeite do mundo é sempre aquele mais próximo de você”, defende o coordenador do Pró-Oliva, Paulo Lipp João.
    Outros pontos como o tempo de batimento da pasta de azeitonas e o ponto de maturação da fruta também são levados em conta para a qualidade do azeite, e acabam encarecendo o produto final. O grande desafio, segundo os produtores, é conseguir conscientizar os consumidores de que o produto vale a diferença no preço com o produto europeu que, além da grande escala, ainda é muitas vezes subsidiado pelos governos de origem.
    O problema, segundo eles, é que todos entram, hoje, como “extra virgem” no Brasil. “Eles têm todos os parâmetros técnicos exigidos para ter esse rótulo, mas isso é apenas metade do processo. Se houvesse um laudo fisiológico, a maioria dificilmente conseguiria passar”, projeta o diretor da Olivas do Sul, Daniel Aued. A situação dificultaria a sensibilização sobre as diferenças entre os produtos, já que ambos ostentam a mesma denominação. “O lado bom é que, depois de ter contato com um produto de qualidade, o cliente não consegue voltar a consumir o importado”, acrescenta Aued sobre a diferença entre os produtos.
    Quanto aos preços, nem mesmo a desvalorização do real parece animar muito, já que boa parte dos insumos ainda é balizada pelas moedas externas. “A diferença na gôndola vai ser menor, mas não vai empatar”, projeta Aued. Hoje, por exemplo, o azeite gaúcho pode chegar a quase R$ 50,00 a garrafa de meio litro, enquanto é possível comprar o produto importado pela metade do preço.

    Azeitonas de mesa são o próximo alvo dos produtores

    Variedades destinadas a conservas, como a arbequina, despertam interesse
    Até agora, toda a produção gaúcha de azeitonas é destinada a elaboração de azeites. As variedades mais cultivadas no Estado ainda são as mais propícias para essa destinação, como arbequina (a mais plantada), arbosana, koroneike, frantoio e picual. Segundo o diretor da Tecnolivas, Rafael Marchetti, o movimento foi natural, já que essas espécies tendem a ser mais precoces. Mesmo assim, começando de novo praticamente do zero, como a uma década atrás, os produtores e entidades dão os primeiros passos para cultivar, também, variedades de mesa, voltadas a fabricação de conservas.
    “O que nos falta, ainda, é conhecimento”, atesta o coordenador do Pró-Oliva, Paulo Lipp João, que conta que alguns produtores já possuem pomares ainda a nível experimental. Os testes buscam descobrir quais as variedades mais adaptadas, quanto tempo levam para produzir e custos, por exemplo. Um dos problemas, segundo o diretor da Olivas do Sul, Daniel Aued, é o fato de que é permitida, hoje, a importação de espécies apenas de Argentina e Espanha. “Já testamos alguns cultivares que tiveram boa adaptação, mas o leque poderia ser maior”, reclama Aued.
    O cenário pode mudar em breve – o que, aliás, não seria nenhuma novidade para a olivicultura gaúcha -, mas, com as informações que se tem hoje, o potencial das conservas ainda está limitado a pequenas propriedades e à produção artesanal. Um dos pontos em aberto é o fato de que, ao contrário das espécies para azeite, ainda não foi encontrada uma técnica que permita a colheita mecanizada das frutas para conserva. O método é essencial para que se consiga volume e preço competitivo. “Já vimos isso no Uruguai, que passa pelo mesmo processo que a gente, onde os produtores mais antigos nos disseram que, sem mecanização, fica-se restrito a áreas muito pequenas”, comenta João.
    “Temos que plantar e observar, sempre ficar testando, porque é algo muito novo”, agrega Marchetti, cujo carro-chefe ainda é a criação de mudas para novos pomares. “Quem entra nesse negócio, tem que saber que ainda é um risco. Mas, pelo menos, não é mais o mesmo risco de cinco anos atrás, quando não sabíamos nem se íamos conseguir produzir”, alerta o diretor da Tecnolivas. E muita gente tem entrado. Apenas no ano passado, segundo Marchetti, a empresa vendeu 119 mil mudas de oliveiras, o suficiente para ocupar mais de 400 hectares com novas azeitonas gaúchas.



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